Quem jogou um RPG vai compreender perfeitamente esta crónica. Primeiro começa com tudo escuro. Depois aparece uma voz aborrecida a chamar-nos, é uma voz feminina, é a voz da nossa mãe, e ela está no nosso quarto a acordar-nos simplesmente porque sim, ou porque é de manhã, ou porque o pequeno-almoço está na mesa, o Apocalipse está eminente, são horas do programa do Goucha, ou então, no caso de certos prodígios, o personagem já está acordado e bem disposto.
"Oh mãe. Só mais cinco minutos!"
Começamos, então, no nosso quarto. Depois, descemos as escadas, porque moramos seeeempre num duplex. A mãe está na mesa à frente da entrada de casa, ou então na cozinha (e aqui dou azo às piadas machistas). O pai... está desaparecido, não tens pai, o teu pai é uma criatura com mais do que duas pernas e dois braços e de severa complexidade, está internado, está a tirar um Curso Intensivo nas Novas Oportunidades ou então nasceste através da inseminação artificial.
"Não pode ser, filho. Hoje é dia do Apocalipse. Vá, andor, mexe-me esse rabo!"
Descendo as escadas, finalmente tens noção da realidade. Tens um duplex, porreiro, tudo bem. Tens um quarto, awesome, sem irmãozinhos chatos, com a tua tralha. Mas vamos a ser solidários, onde é que a mulher que só subiu uma vez na vida ao andar de cima dorme? Pode nem dormir, mas pode muito bem ter um quarto para si, ou algo assim... Por mais que gostemos de bolo, e até porque o Dia da Mulher é para a semana que vem, as nossas mães também precisam de um momento de sono - nem que seja só enquanto o bolo fica a arrefecer.
Mas não, o mercado dos videojogos é insensível, as mães não dormem, não têm direito a casa, têm apenas como única e exclusiva função acordar-te e ficar o resto da vida na cozinha, para te ver passadas 70h ou 200h de jogo e dizer-te a mesma coisa. Também te adoro!
Infelizmente não podes dizer o mesmo...
Mas quem diz que moramos sozinhos com a mãe, nem sempre é o caso. Pode haver mais ou outra gente lá em casa. Quem diz mãe, diz pai, ou tio, ou tia, ou avó, ou pentavô, ou o vizinho do lado, ou um periquito, ou algo do género. O importante é que em casa só existe uma cama e tu a ocupas toda. Que vida levarão as nossas personagens preferidas? Moram numa vivenda relativamente isolada, com um ou dois andares, no qual o piso inferior é uma mistura de sala com kitchenet, e o andar de cima é o andar do "rei".
Moral da história: Por melhor que seja a vida de "rei" dos videojogos, nem no domingo podes ficar até mais tarde na cama.
Malditas vozes... Deixem-me dormir!